NOTURNOS

A originalidade da dramaturgia construída a partir de um processo de pesquisa com atores da Companhia constituiu a tônica para o desenvolvimento de sua nova montagem, o espetáculo: NOTURNOS. A pesquisa: Paralelas do Tempo: A Teatralidade do "Não Ser", que teve duração de 09 meses, possibilitou aos atores o contato com o universo dos moradores de rua da cidade do Recife. Seu objetivo foi dialogar com os conceitos de vida e morte, criador e criatura, humano e divino, construídos a partir da visão de mundo das pessoas consideradas invisíveis pela nossa sociedade, buscando a teatralidade na essência do universo das ruas do Recife. Desta forma, o "ser marginal", o "tornar-se invisível", "o não ser" no sentido do não existir como um ser pleno de possibilidades constituiu a matéria-prima para as discussões, possibilitando o aprofundamento dos nossos questionamentos e buscando a teatralidade nas suas respostas. O grande desafio seria levar à cena como culminância da pesquisa, não apenas um mapa social da cidade, mas o questionamento sobre nossa própria invisibilidade em diferentes graus de exclusão social. Para isso, foram lidos e debatidos diversos artigos, filmes, realizados experimentos nas ruas e demonstrações públicas da pesquisa até a estréia do espetáculo.

A dramaturgia construída por André Filho como resultado do processo de pesquisa está dividida em três quadros: O presente, A cura e Salobre. Nela, identificamos as referências relativas aos temas: violência, sexualidade, solidão e ociosidade, que foram identificados nas entrevistas e nas vivências dos atores em seu contato com as ruas e seus moradores. Nos três quadros é possível notar a presença desses temas e a sutileza poética com a qual a ficção fala da realidade. O título: Noturnos faz referência a esses seres que ressaltam nas ruas à noite quando a cidade esvazia, além de fazer referência ao tipo de designação musical que nos remete a uma reflexão, a um estado taciturno da alma. A referência musical é uma coerência com o trabalho da Companhia Fiandeiros que também traz em suas pesquisas a música como plataforma de criação para o trabalho do ator. A pesquisa intitulada: Paralelas do Tempo – A Teatralidade do "Não Ser" resultou numa novíssima dramaturgia, diferenciada pelo aprofundamento teórico.

A cena de Noturnos é a representação dos escombros de uma sociedade doente em seus delírios de consumo, em suas neuroses e na sua solidão. A visão do homem contemporâneo como reflexo de sua incapacidade em ver a si mesmo, incapaz de perceber suas ruínas interiores e o desmoronamento de sua própria condição de humanidade. Noturnos procura não contar histórias tradicionais com começo meio e fim. Seus quadros são fragmentos de vida, de uma existência nômade e cíclica. Nômade como nossos sonhos que nos colocam em movimento e cíclica como a nossa vida, sempre a retornar ao ponto onde tudo começou. Somos todos invisíveis dentro de nós mesmos e dentro deste mundo em constante desmoronamento, com seus fantasmas a vagar como poeira no tempo. E dessa forma se apresentam o cenário e os atores: empoeirados, cinzas, em ruínas. Na encenação de NOTURNOS apenas a poesia e a arte parecem nos oxigenar. São estes os únicos elementos vibrantes na cena, a única possibilidade concreta de um novo recomeço. O resto é apenas o silêncio das imagens que não existem, ou daquelas que, mesmo existindo, se tornam invisíveis por não serem comuns ao que acreditamos.